PORTUGÁLIA
O «NOMADISMO» DOS PORTUGUESES PARA
MONTREAL
(PUBLICADO NO JORNAL DA UNB, 2000)
"A dor é uma dessas chaves que abrem não
apenas a intimidade dos homens
mas a intimidade do mundo"
Ernest Junger
Se os portugueses chegaram no Brasil achando
que estavam chegando na Índia, os franceses e os ingleses,
por sua vez, -Jacques Cartier em 1534 e Henry Hudson em 1611-
avistaram eufóricos o território canadense certos
de que estavam aportando na China.
Segundo país do mundo em território e um dos mais
desenvolvidos do planeta, o Canadá, é ainda hoje
uma monarquia constitucional, com rainha e tudo. Apesar de aparecer
estampada em algumas moedas e em alguns dólares, se faz
representar por um governador geral e não apita -pelo menos
em público- praticamente nada. Parece ser só um
luxo e um nostálgico exotismo.
Quebec, a maior província deste país, apesar de
fazer de tudo para seguir o ritmo da América, não
abre mão do charme de suas origens francesas, dos queijos
e do idioma. O francês é a língua usual dos
quebequences, apesar de que o inglês também é
falado e compreendido em praticamente todos os lugares. Dizem
que foi numa visita à aldeia de Hochelaga que, em 1542,
Jacques Cartier, deslumbrado com a montanha que viu diante de
si, deu-lhe o nome de Mont Royal , uma homenagem ao rei da França.
Hoje, Montreal é a segunda cidade francófona mais
importante do mundo, e foi para cá que os portugueses,
movidos por genômas nômades ou por pura necessidade,
imigraram e onde, com aproximadamente umas cinqüenta mil
pessoas, constituem, uma das mais importantes comunidades latinas
do Quebec.
A década de 60 foi um período importante na imigração
para o Quebec. Belgas, egípcios, libaneses, haitianos,
mas principalmente europeus de países do sul como a Itália,
a Grécia e Portugal. Em 1971, havia no Quebec (em Toronto
a comunidade portuguesa é maior) 16 mil portugueses. Em
1981, esse número passou para 27 mil e atualmente, segundo
notícia recente no jornal local Le Devoir, chegam a 50
mil.
Apesar dos pescadores portugueses navegarem os mares canadenses
há centenas de anos, -para onde vinham seguindo a rota
dos cardumes de bacalhau- a maior parte dos imigrantes desse minúsculo
país europeu se estabeleceu aqui, aos pés do Mont
Royal, após a 2ª guerra mundial.
Três razões fundamentais facilitaram a imigração
portuguesa para cá, naquele momento:
1. Os problemas sócio-políticos e econômicos
gerados pela ditadura de Salazar em Portugal;
2. a necessidade e o projeto português de reduzir a população
nas ilhas dos Açores;
3. por um lado as dificuldades para imigrar para o Brasil -devido
as mudanças da política brasileira de imigração-
e por outro a forte demanda canadense de trabalhadores agrícolas.
Sem outra alternativa, milhares de portugueses «fizeram
os papéis» e navegaram dos Açores para Halifax,
de onde eram imediatamente remanejados para fazendas, não
apenas da província do Quebec, mas de todo o território
canadense. Mesmo para um povo como os portugueses, que souberam
acostumar-se na Índia (Goa), na China (Macau), nos países
africanos etc., etc., o choque aqui foi violento. Além
do trabalho agrícola canadense não ter nada a ver
com aquilo que os portugueses estavam acostumados em Portugal
e principalmente nos Açores, as grandes dificuldades se
apresentaram no terreno da cultura, da língua, da alimentação,
do clima e de tudo o mais que esse tipo de «exílio»
sempre significou para o caráter português. Como
era de se esperar, a grande maioria deles começou a cair
fora das fazendas agrícolas o mais rápido possível
e a procurar outro tipo de ocupação, principalmente
no meio urbano de Toronto e de Montreal, onde logo passaram a
exercer os mais diversos tipos de atividades, como a de carpinteiro,
pedreiro, camareiro, porteiros, garçons e até donos
de pequenos comércios, de pensões, etc. Muitos homens
solteiros, subjugados pela solidão e pela saudades, casavam-se
por procuração (como a mãe de Fernando Pessoa,
em 1895, com o comandante João Miguel Rosa) com mulheres
de Portugal que às vezes nem conheciam. Quando conseguiam
os primeiros dólares para a passagem, mandavam imediatamente
buscá-las e iam, de mãos nos bolsos, mastigando
um palito, tímidos, a camisa abotoada até o gogó
e com bonézinhos inconfundíveis, esperá-las
romanticamente no porto. À sua maneira, também estavam
«fazendo a América». Aqui no Quebec, parece
que historicamente as funções técnicas, altamente
especializadas, foram sendo desenvolvidas principalmente por imigrantes
vindos da alemanha, dos EEUU e da Grã-Bretanha; as que
dizem respeito à educação ficaram a cargo
dos que vieram da França, da Bélgica e do Egito.
Para os haitianos, ficaram os serviços de taxi e, para
os portugueses, como já disse, os «serviços
gerais».
Quem passa distraído aqui pelo Boulevard Saint Laurent,
-entre a Sherbrooke e a Saint Josef- apesar do francês e
do inglês aportuguesado e das marcas de lusitanidade por
todos os lados, não se dá conta de que está
passando pela medula de uma cultura singular, por dentro da «alma»
de um povo de navegadores e de católicos fervorosos, pouco
dados ao luxo do intelecto -é verdade-, mas obsessivamente
trabalhadores e eternamente obcecados por uma bacalhoada com batatas
e com vinho.
Da vitrine de uma livraria, um gato imenso acompanha o movimento
da rua, na mesma posição da esfinge egípcia.
Mesinhas com toalhas quadriculadas, aromas de sopas, montanhas
de pães, lojas de roupas usadas, agências de viagem,
homens e mulheres que surgem de repente numa esquina e que desaparecem
tão misteriosamente como apareceram, colocando em evidencia
e em movimento o tão bem conhecido perfil português.
As rugas sobre os olhinhos pequenos, lançados quase sempre
para bem longe, contra o sol, como quem tem que adivinhar as distâncias,
os perigos, os enigmas e a infinitude dos oceanos.
Quando falam entre eles é quase impossível identificá-los.
Parece que estão falando romeno, grego, vietnamita, qualquer
um dos muitos idiomas do mundo, menos o português. O que
não conseguem camuflar nem em sí e nem na arquitetura
é a «gestalt» de lusitanidade. Casinhas enfeitadas
com gaiolas, flores, escadas, varais e na fachada sempre uma coroa
do Espírito Santo, imagens de Santo Antonio ou de N.Sª
de Fátima, Homens aparentemente melancólicos atrás
das vidraças que nos olham com uma curiosidade infinita.
Os portuguesismos nas fachadas dos bazares, dos cafés,
das peixarias e no interior de um mercado, mulheres pequenas,
entroncadas e com correntinhas de ouro no pescoço resmungam
diante dos produtos indispensáveis: o peixe, a oliva, o
pão, meia garrafa de vinho tinto, uma sacola de café
moído na hora... Depois ficam na fila do caixa, extremamente
disciplinadas e como se estivessem submetidas por alguma tristeza.
"Das feições da alma que caracterizam o povo
português -escrevia Fernando Pessoa- a mais irritante é,
sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos um povo
disciplinado por excelência". A uma quadra dali, no
Café Central, esquina da avenida Duluth com a rua Santa
Dominique, o mesmo barulho e o mesmo burburinho dos cafés
cariocas e dos cafés de Portugal. Um homem descompensado
mentalmente ocupa solitário a mesa junto à janela,
enquanto as outras duas ou três estão ocupadas por
jogadores de baralho. No balcão, a postura clássica
dos que bebem em pé, apoiados apenas numa das pernas, enquanto
a outra descansa. Um dia ainda vamos descobrir que a genética
é tudo e que a cultura não é nada. Nas paredes,
duas cabeças de alces e fotos de times portugueses. A grande
maioria ainda continua fascinada pelos três Fs: Fátima,
Fado e Futebol, apesar de um deles, mais refinado, declarar que
são três Ps que lhe dão nostalgia: Porto,
Pastéis e Pessoa. Duas TVs ligadas numa estação
portuguesa e no volume máximo, mostram a visita do Papa
à cidade de Fátima. Apesar da decepção
com a «última profecia», não deixam
de fazer o sinal da cruz, quase num orgasmo coletivo, quando o
Papa profere as primeira palavras. Enquanto me delicio por estar
ali, anônimo, roubando fragmentos de suas intimidades, invoco
novamente a F. Pessoa "Nunca o português tem uma ação
sua, quebrando com o meio, virando as costas ao vizinho. Age sempre
em grupos, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está
sempre à espera dos outros para tudo". Apesar das
«cachaças» e do ambiente profano, o bar transpira
catolicismo, fé e religiosidade por todos os poros. Nenhuma
mulher entrou aqui nestes quarenta minutos. Só homens.
Baixinhos, fortes, barrigudos, cabelos pretos, bigodes, desconfiados,
brincalhões, fumantes inveterados e quase sempre vestidos
de preto ou de marrom. Posso vê-las lá fora, na rua,
com bolsas de mercado atravessando rápidas em frente a
«boucherie» Soares & Filhos para irem esperar
o ônibus 55.
Segundo o Guía Étnico de Montreal, alguns portugueses
chegaram no Quebec quase junto com os primeiros colonizadores
franceses e ingleses, entre eles, um tal de Pedro da Silva, que
chegou em 1677, vindo de Lisboa e que foi o primeiro responsável
pelos serviços de correios entre as cidades de Montreal
e Quebec. Seus descendentes levam hoje os sobrenomes Dasylva,
Dasilva e Da Silva.
Na rua Rachel, 60, está a paróquia e a igreja de
Santa Cruz que a própria comunidade construiu. De tantos
enfeites, bandeirolas, símbolos e escudos na fachada, faz
lembrar algumas particularidades do Vale do Amanhecer. Dois carpinteiros
aposentados trabalham na construção de galpões
para a grande festa dos dias 20, 21 e 22. Apesar dos sessenta
anos os cabelos ainda estão pretos e os braços musculosos.
A ambos lhes falta dois dedos na mão direita. Ônus
da carpintaria? Segundo eles, todo português que vive no
exterior vive como um exilado. Apesar do elevado nível
de vida que levam aqui, por eles, se pudessem, teriam permanecido
em Lisboa, atrás dos morros ou nos cafundós da pátria.
Fora do pequeno e super populoso Portugal, conservam quase que
em segredo, quase como um delito, os pequenos sinais da identidade.
Ouço comentários sutis sobre a frustração
da 3ª revelação de Fátima, mas nem pensar
em colocar a fé em discussão, pois foi -segundo
eles- através e ao redor da igreja que conseguiram manter-se
no unidos e vivos no «exílio». A festa em honra
do Senhor Santo Cristo dos Milagres, uma tradição
trazida para cá pelos açoreanos da ilha de São
Miguel, que acontece todos os anos no quinto domingo depois da
páscoa, tem todos os elementos do catolicismo medieval
e proporciona imagens que só se acredita, vendo. Assim
que o padre José Maria Cardoso aparece, as mulheres levantam
as velas de mais de um metro, os homens pisoteiam os cigarros,
tiram os chapéus e marcham literalmente atrás daquele
acervo de ícones, cochichando, criticando e tentando adivinhar
o roteiro da caminhada e a ordem dos atos litúrgicos. A
procissão trouxe às ruas praticamente toda a comunidade
lusitana, figuras que fascinariam a qualquer arqueólogo
e a qualquer cineasta. Carros luxuosos, perucas, meias pretas,
laquê no cabelo, perfumes, sedas, gravatas, paletós,
chapéus, bengalas, colares, crucifixos, doentes em cadeira
de rodas, três ou até quatro gerações
abraçadas, tristes e até em lágrimas vendo
as «fanfarras» passando e lá no alto do andor,
um cristo aniquilado. Uma coroa de espinhos na cabeça,
o sangue escorrendo por todo o corpo, uma ferida imensa aberta
no peito por uma lança. Dois franceses que passam casualmente
por ali, comentam: um Deus tão triste como eles. Por sobre
os braços dos que transportam a imagem, uma faixa com as
palavras sórdidas atribuídas a Pilatos: Ecce Homo.
Um homem ainda jovem sobe as escadarias da igreja com dificuldade
e é seguido por uma mulher que vai retirando pêlos
de seu paletó. Um pouco mais abaixo, dois homens falam
tête-à-tête enquanto um deles arruma delicadamente
a gravata do outro. Acompanho a procissão que subiu pelo
quarteirão de Montreal, ora ao lado dos «pelotões»
de senhoras com figuras de N.Sª sob o braço, ora ao
lado dos pelotões de senhores com capas vermelhas, ora
ao lado dos pelotões de crianças travestidas de
anjos, dos coroínhas em posição marcial,
etc., com bandeiras do Canadá, de Portugal, do Quebec,
etc., e vou recitando outro fragmento profano do mais conhecido
poeta português: "Somos incapazes de revolta e de agitação.
Quando fizemos uma «revolução» foi para
implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchamos uma
revolução com a brandura com que tratamos os vencidos.
E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse;
não nos resultou uma anarquia, uma perturbação
das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados
que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície
e de fingimento..." A procissão segue, as janelas
das casas e as calçadas estão cheias, sinto que
vou me contaminando pela tristeza e pelo remordimento generalizado.
Mesmo não descendendo geneticamente deles, tenho consciência
que pontuo, entôo e falo a língua que eles impuseram
inicialmente sobre os Tupi-guaranis e por fim sobre um território
cem vezes maior que o pequeno e simpático Portugal. Rituais,
gestos, manias, cacoetes, temores, crenças, costumes...
um imaginário genuinamente português. Será
possível viver regido por um imaginário genuinamente
português?
Álbatroz, a Barateira, Café e bar Copacabana, Terra
Nostra, Cocoricó, Cabral, Patatipatata, imobiliária
Joaquim, Designer Alves, Epicerie Lusitania, Padaria Coimbra,
Rosas de Portugal, Material de construção Azores,
etc, etc. Cheiro de sardinhas boiando no azeite, bolos de noivas,
de batizado e de núpcias na vitrine, galos nas portas,
taxistas, consertos de bicicleta, padeiros, pratos típicos,
gestos, disfarces, desconfianças, música brasileira.
Frequentemente cruzo por mulheres encorpadas que falam autoritariamente
a homens pequenos, quietos, submissos, com as mãos nos
bolsos, brincando com as moedas. Um português declarou simpático
para um jornal: Deus criou o homem e a mulher, os portugueses
criaram a mulata. Não deve ter se dado conta de que estava
fazendo menção às histórias de mancebia
de seus ancestrais e nem de que a expressão «mulata»
tem uma origem pejorativa já que lembra o hibridismo da
mula.
Dei um jeito de caminhar pelos fundos das casas, quase todas silenciosas
e vazias, com apenas os gatos e os cães atentos atrás
das cercas e das vidraças. De quando em quando um homem
regando as plantas ou sentado nas escadarias, meio corpo ao sol,
meio corpo à sombra, imerso num clima quase esotérico,
um misto de solidão, prazer, deleite e tristeza... como
se o sol o obrigasse a recordar que ontem o inverno foi rigoroso
e que amanhã o será novamente. Um casal de «proletários»
se apalpa junto à parede. O homem parece um bloco de mármore
e ela o beija assim mesmo, teatralmente, em frenesi, por sobre
os bigodes manchados de nicotina, tudo sob o olhar atento e viperino
de uma mulher gorducha que lava a calçada e que parece
gozar com a idéia de que amanhã, de tudo aquilo
terá restado apenas esquecimento.
O dono de uma peixaria aparece à porta com seu avental
branco e os bigodes nietzschenianos. Pergunto-lhe se não
vai à procissão. Ele debocha do fatalismo de seus
conterrâneos e retruca que não, com a arrogância
e a convicção típica dos ateus. Segundo ele,
vários portugueses que hoje moram aqui, já moraram
no Brasil. Não deu certo e vieram para cá. Falam
sistematicamente no F. H. Cardoso, insistindo nas origens lusitanas
desse nome. (Por coincidência, o padre da comunidade tem
esse mesmo sobrenome). Imagens fantasmagóricas do Brasil.
Às vezes, referindo-se à sociedade brasileira, parecem
acreditar que o Brasil vive uma guerra civil como as que viveram
Moçambique, Angola e a Guine na década de sessenta.
Aliás, a eclosão das revoluções nessas
colônias portuguesas na África foi, para muitos jovens
que fugiam do serviço militar português, a razão
da imigração para o Canadá. Depois do almoço,
muitos velhinhos tomam o rumo do Parc du Portugal e ali ficam
duas ou três horas ao sol, numa verdadeira sessão
de psicodrama, perdidos e fascinados em discussões intermináveis
que, lamentavelmente, não dá para entender. Além
desta praça dedicada à comunidade portuguesa, parece
que existe por aqui uma outra -que ainda não consegui localizar-
que leva o nome de Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches,
um suposto herói da segunda guerra mundial.
Percorro as mesmas ruas do «quadrilátero português»
mais de uma vez e nos horários mais diversos e os gatos
estão sempre lá, vigilantes e zen. Casais cuidam
de pequenos jardins onde florescem túlipas de todas as
cores. Em algumas casas, minúsculas "vendas de garagem"
onde se pode comprar livros, vasos, roupas, cabides, xícaras,
brinquedos. Bicicletas amarradas às escadas e de uma janela
o som de uma melancólica música portuguesa. Vasos
com pequenas begônias, roupas secando no corrimão
da varanda, uma caixa de correspondência cheia de cartões,
jornais e recados. A porta de uma casinha de madeira se abre e
aparecem duas mulheres e um homem que leva um cachorro branco
acorrentado. Casacões pretos, um taxi, o «depanneur»
Kuan, bem na esquina. Túlipas por todos os lados, umas
abertas, outras como a papoula do ópio e uma cortina com
desenhos de galos. Aqui na rua Laval, 3686, ainda dentro do quadrilátero
lusitano, viveu o poeta maldito de Montreal: Émile Nélligan.
Nas escadarias de sua casa, seis vasos com flores, cortinas de
renda nas janelas, uma escultura do rosto do poeta incrustada
na parede. Para muitos, Nélligam é o Rimbaud quebequence.
Produziu sua obra dos 16 aos 19 anos e pirou. Morreu no hospital
que fica no Boulevard Urbain, próximo a Associação
Portuguesa de Montreal.
O restaurante Cocoricó, que serve um prato famoso com frango
assado, batatas e salada, está sempre lotado. Duas senhoras
portuguesas ao meu lado, comeram não apenas a asa do frango,
mas todas as batatas e toda a salada sem usar os talheres. Numa
pequena prateleira, de graça para os clientes, os dois
jornais produzidos pela comunidade: Jornal do emigrante e A voz
de Portugal. Na mesma rua, uma boate chamada Catedral e a livraria
Andrógyna, especializada em textos, livros, músicas
e apetrechos gays. Fico imaginando o espanto de uma velhinha açoreana
no meio de todas estas «perdições».
Uma cliente de quase meia tonelada, discute com a vendedora a
identidade de Anais Nin. Filha de um Joaquim e de uma Rosa, seria
cubana de pais portugueses?
A manhã de meu último dia aqui já está
quase terminando. O sol bate forte nas vidraças do café
Chez José, pertinho da rua Bullion, onde o primeiro imigrante
português veio instalar-se. Duas mulheres de preto esperam
um taxi enquanto trocam palpites sobres doenças, constipação
e uma fadiga incurável. Pago o dólar e cinqüenta
que devo, de meu café expresso, e tomo o rumo do hotel,
na rua Saint Denis, ansioso para revelar meus filmes, arrumar
a mochila e cair no mundo
Hotel Manoir, Montreal/Canadá