O MITO DO ESCRITOR MARGINAL
Ezio Flavio Bazzo
Palestra feita na UnB, a convite dos alunos da psicologia
(11 de abril de 2002)
[Não existe um grupo de jovens pelas ruas
que não possa ser um grupo de criminosos. Não têm
nenhuma luz nos olhos: seus traços são traços
imitados de autômatos, sem que nada de pessoal os caracterize
de dentro. A estereotipia torna-os pérfidos. Seu silêncio
pode preceder um trépido pedido de ajuda ou uma facada (S)
Os filhos que não se liberam das culpas dos pais são
infelizes; e não existe signo mais decisivo e imperdoável
de culpabilidade do que a infelicidadeS]
P.P. Pasolini
O convite para participar deste evento detonou inesperadamente em
mim um surto de mau-caratismo, uma neurose antiga e abominável,
muito bem conhecida nos ghetos acadêmicos e intelectuais,
cujo principal sintoma é sempre o mesmo: a disputa pedante
com uma platéia imaginária e por um Poder fictício.
Vi-me diante da tentação de assumir
uma postura que não me pertence, de exibir um Texto e um
Saber que não tenho, de armar-me até os dentes e de
colocar-me num lugar de onde poderia derrotar facilmente as possíveis
objeções contra minhas idéias e até
mesmo contra meus desejos. Surpreendi-me várias vezes arquitetando
um truque para parecer mais hábil e até mesmo MAIOR
que qualquer um dos interlocutores, mesmo que para isto fosse necessário
falsificar argumentos, burlar estatisticas, inventar referências
e arrancar de minhas entranhas a lábia imbatível que
os intimidasse para sempre e que os mantivesse imóveis e
mudos aí em baixo, um metro e meio abaixo deste púlpito
que, histórica e sabiamente, a tradição eclesiástica
concedeu aos padres, aos professores e aos políticos. A esses
irmãos siamêses, empenhados há séculos
em dar legitimidade às três clássicas e conhecidas
profissões impossíveis: a de EDUCAR, a de CURAR e
a de GOVERNAR.
Falaria espontaneamente?, mesmo correndo o risco
de ser traído por meus instintos, de dizer um montão
de bobagens infundadas e de ser ridicularizado pelo espírito
maligno e justo que sempre atiça as platéias? Ou,
matreiramente, ordenaria minhas idéias num roteiro em forma
de jaula (como fazem os professores), para assim preservar minha
integridade intelectual e garantir a imagem que quero que tenham
de mim?
Sempre tive preconceitos com os palestradores que
não palestram e com os vivaldinos das metodologias pós-modernas.
Entretanto, depois que vi o próprio Chomsky, o Edgar Morin
e outros pequenos deuses da atualidade, neste mesmo estrado, agarrados
à duas ou três laudas, com os joelhos trêmulos
e apertados um ao outro, fui relaxando e sendo mais condescendente
com meus fantasmas e com minhas antigas exigências, baseadas
muito mais numa idealização semi-religiosa e boçal
do mundo, e muito mais num superego vil, do que no bom senso. Claro
que se estivessemos numa Bolonha medieval ou numa Sorbone do século
XIII, onde os professores eram escolhidos pelos próprios
alunos, por sua sapiência e não por sua astúcia,
uma postura destas me custaria não apenas a cátedra,
mas também a honra. Aliás, quero lembrar que só
concordei em vir expor-me aqui, deste jeito, porque o convite partiu
dos alunos. Não porque acredite que eles sejam menos viperinos
que seus mestres, mas por saber que ainda não precisam defender
o Espaço Universitário nem a Praxis academica com
a obsessão de quem defende um dogma. Por outro lado, porque
identifiquei na lógica dessse convite, uma prática
correta e saudável da Idade Média. Seria fascinante
se voltassem a ser eles, os alunos, que escolhessem rigorosamente
seus palestrantes, seus professores, seus peritos, seus orientadores,
etc., como o era naquele tempoS E que não fossem, claro,
recrutá-los apenas lá no interior das mesmas confrarias
financiadas por organismos estatais ou multinacionais, nem que se
deixassem impressionar pelos títulos ou pela quantidade das
Cartas de Recomendação exibidas pelos
pretendentes, mas sim pela maneira como dançam a vida, como
saltam de uma corda à outra do trapézio em movimento
e de como driblam as paranóias inevitáveis deste circo
neurótico e de quinta qualidade que é a vida.
Quando tento entrar de vez no assunto que aqui
interessa, me deparo com minhas limitações e com a
dificuldade de esboçar até um simples retrato tanto
do suposto "sujeito marginal", como da produção
"supostamente naldita". E digo suposto propositalmente
para insinuar desde já que, talvez, nem seja possivel ser
MARGINAL, essa pecha pejorativa que os editores do século
XVIII lançaram, com fins estritamente econômicos, contra
àqueles autores que preferiam publicar eles próprios
as suas obras. E digo suposto, -repito- porque qualquer um de vocês
conhece a dificuldade de permanecer sem nenhum estatuto, à
margem, do outro lado do arame farpado, além de um período
curto e idílico, já que tudo neste planeta beato conspira
para que sejamos, ou jogados terminantemente no lixo ou cooptados
pela máquina da cultura.
E se por milagre o sujeito conseguir resistir a
esse assédio por toda a vida (o que é quase impossível,
uma vez que o anonimato literário não lhe é
suportável-Foucault), assim que bate as botas é rapidamente
resgatado e reabilitado pelos abutres da literatura: um padre, um
professor ou um mecenas qualquer. Então se torna lenda, folclore,
um santo, um espírito benéfico ou maléfico
que renderá dinheiro para alguém, mesmo quando constava
em seu curricullum o diagnóstico de ateu, anarquista, anti-social,
corsário, vagabundo, perverso sexual, mendigo, boêmio,
cachaceiro, louco por xotas, delinquente, autodidata, etc.
Pelo que já vimos até agora, tanto
neste como em outros países, o tal "marginal" não
é necessariamente um sujeito que diz NÃO para sempre
ao Contrato Social, e tampouco aquele que cospe de forma irretroativa
sobre os cânones principais do Estado, da Família,
da Igreja e das outras
imbecilidades estabelecidas. Sua marginália (como tudo nesta
sociedade presidida por rebanhos) é efêmera. Pensem
em Rimbaut, se quiserem, ou em Baudelaire (que fingia querer dinamitar
todos os pilares morais e sentimentalóides da época,
mas que bastou adoecer, para voltar em frenesi para os braços
da mãe). Pensem até no alquimista Paulo Coelho, se
isto não lhes dá náuseas, que travestiu-se
de marginal até que pode e que agora, de uns anos para cá,
vem insiniando poderes sobrenaturais e está prestes a ser
eleito para a Academia Brasileira de Letras. Sim, o marginal das
letras é um personagem que ganha visibilidade apenas num
tempo determinado e limitado de sua trajetória. De um dia
para outro, ou some naturalmente do mapa, sem deixar rastro, ou
é absorvido e enrabado pela melancolia democrática.
Descobre como escrevia Pasolini- que é
muito melhor ser inimigo do povo do que inimigo da realidade. Vai
mudando de pele como uma serpente, ou como um calango, racionalizando
seu retrocesso e sua metamorfose até que se deixa seduzir
definitivamente por uma editora, por uma seita, poe uma viúva,
por um contracheque, por uma vaga num departamento, ou pelos elogios
de um pederasta da mídia. Sucumbre à própria
vaidade escamoteada e ao narcisismo que espreitava do fundo de seus
complexos. Começa adocicar as palavras, preocupar-se com
a gramática, fazer concessões, mudar o penteado, aparecer
engravatado nas saturnais dos corruptos emergentes e pleitear uma
cadeira entre a velharada que comanda há séculos a
maioria dos banquetes. De Balzac a Lima BarretoS. De gregório
de Matos a LeminskyS. De Jean Genet a Samuel RawetS a Plinio Marcos,
etcS sempre a mesma ambiguidade e o mesmo flerte esquizóide
com o Lixo e o Luxo, como se trilhar à "margem"
e na "contramão" da comédia social não
fosse uma opção consciente nem um destino irrevogável,
mas apenas um esnobismo experimental.
Mesmo assim, seria ridículo negar que produziram
melhores obras aqueles que, por uma razão qualquer, foram
banidos do sistema, cuspidos para for a da família, amaldiçoados
por uma mãe histérica e por um pai asselvajado, excomungados,
algemados, barrados na porta das universidades, rejeitados pelo
mundo editorial, possuídos por uma ou outra forma de loucuraS
eles que encontraram na própria bílis a maneira mais
cruel de exercer a denúncia, por um lado contra a espécie
abominável que é o homem e por outro, contra um mundo
tão frívolo e tão pérfido.
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