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DYMPHNE - A Santa Protetora dos Loucos
142, Ilustrado R$ 25,00
     

Assim como os mexicanos estão convencidos de que <<toda redondez da terra não é mais do que um imenso sepulcro>>, nós que trabalhamos com a doença mental, e que não nos cansamos de deambular pelas catacumbas patéticas da civilidade, vamos aos poucos nos convencendo de que <<toda a redondez da terra não é mais do que um imenso hospício>>. E mais: que talvez seja um imenso hospício exatamente por se ter consciência de que é também um imenso sepulcro. Escrever sobre a loucura, apesar de parecer chic e cult, pode ser apenas um truque defensivo para tentar mantê-la estéril e inofensiva no meio das folhas, presa às letras, interditada pelos pontos e colada às ilustrações, enquanto nós, sorrateiramente e cheios de repulsa, podemos seguir fugindo e erigindo sobre nossas pegadas, muralhas mais altas que a da China, colecionando álibis, discursos e racionalizações para, na ante-sala de nosso HPAP interior, provar que ainda não fomos tocados. E essa ameaça não é de ontem e nem de ante ontem, parece vir de muito mais longe. Nos Vedas, por exemplo- os loucos além de venerados, aparecem usando nomes das principais divindades indianas; e no Antigo Testamento, David é chamado com sua harpa para tratar a melancolia de Saul. Talvez seja ele, em toda história do, mundo, a assumir por primeira vez o complicado e suspeito papel xamã e de psicoterapêuta. É provável que nosso desconforto diante da loucura e da possibilidade de enlouquecer advenha não apenas das notícias abismais que os doentes conseguiram nos transmitir, mas dos horrores clínicos e terapêuticos aos quais eles foram sistematicamente submetidos durante os últimos 14 séculos. Exorcismos; pauladas; enforcamentos; fogueiras; destilação da mente; transfusão de sangue; magnetismo; eletrochoques; castrações; correntes; poltronas giratórias; quartos escuros; chicotes; máscaras de ferro; lobotomias; pílulas purgativas; sangrias; vomitivos; calmantes; pó de ossos; ópio; excrementos; mercúrio; pó de chifre; insônia; jejuns; hidroterapias súbitas; mandrágora; cânfora; oxido de zinco; Assa Faetida; valeriana; brometo de potássio; haschish; codeína; morfina; papaverina; etc...

Este trabalho não tem nenhuma pretensão transcendente, nem perante o mundo das ciências naturais nem das ciências ocultas e,muito menos, claro, perante os tabernáculos narcizóides da literatura. A insistência em seguir publicando, - por menos que acreditem- faz parte de um exercício que venho cumprindo, rigorosamente, depois da descoberta de que neste mundinho de bosta- como escrevia Osip Mandalstan- tudo crepita e titubeia. O ar se agita de tantas comparações, uma palavra não convém mais do que outra e tudo se resume num fervilhar inútil de metáforas.

 

 
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