Assim como os mexicanos
estão convencidos de que <<toda redondez da terra
não é mais do que um imenso sepulcro>>, nós
que trabalhamos com a doença mental, e que não nos
cansamos de deambular pelas catacumbas patéticas da civilidade,
vamos aos poucos nos convencendo de que <<toda a redondez
da terra não é mais do que um imenso hospício>>.
E mais: que talvez seja um imenso hospício exatamente por
se ter consciência de que é também um imenso
sepulcro. Escrever sobre a loucura, apesar de parecer chic e cult,
pode ser apenas um truque defensivo para tentar mantê-la
estéril e inofensiva no meio das folhas, presa às
letras, interditada pelos pontos e colada às ilustrações,
enquanto nós, sorrateiramente e cheios de repulsa, podemos
seguir fugindo e erigindo sobre nossas pegadas, muralhas mais
altas que a da China, colecionando álibis, discursos e
racionalizações para, na ante-sala de nosso HPAP
interior, provar que ainda não fomos tocados. E essa ameaça
não é de ontem e nem de ante ontem, parece vir de
muito mais longe. Nos Vedas, por exemplo- os loucos além
de venerados, aparecem usando nomes das principais divindades
indianas; e no Antigo Testamento, David é chamado com sua
harpa para tratar a melancolia de Saul. Talvez seja ele, em toda
história do, mundo, a assumir por primeira vez o complicado
e suspeito papel xamã e de psicoterapêuta. É
provável que nosso desconforto diante da loucura e da possibilidade
de enlouquecer advenha não apenas das notícias abismais
que os doentes conseguiram nos transmitir, mas dos horrores clínicos
e terapêuticos aos quais eles foram sistematicamente submetidos
durante os últimos 14 séculos. Exorcismos; pauladas;
enforcamentos; fogueiras; destilação da mente; transfusão
de sangue; magnetismo; eletrochoques; castrações;
correntes; poltronas giratórias; quartos escuros; chicotes;
máscaras de ferro; lobotomias; pílulas purgativas;
sangrias; vomitivos; calmantes; pó de ossos; ópio;
excrementos; mercúrio; pó de chifre; insônia;
jejuns; hidroterapias súbitas; mandrágora; cânfora;
oxido de zinco; Assa Faetida; valeriana; brometo de potássio;
haschish; codeína; morfina; papaverina; etc...
Este trabalho não
tem nenhuma pretensão transcendente, nem perante o mundo
das ciências naturais nem das ciências ocultas e,muito
menos, claro, perante os tabernáculos narcizóides
da literatura. A insistência em seguir publicando, - por
menos que acreditem- faz parte de um exercício que venho
cumprindo, rigorosamente, depois da descoberta de que neste mundinho
de bosta- como escrevia Osip Mandalstan- tudo crepita e titubeia.
O ar se agita de tantas comparações, uma palavra
não convém mais do que outra e tudo se resume num
fervilhar inútil de metáforas.